Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Partido da Renovação Social (PRS) vacila entre a agonia e a regeneração

Órfão desde 2014 do seu líder carismático, Kumba Yala, que o fundou em 1993, o Partido da Renovação Social (PRS), está a lutar cegamente pela sua sobrevivência política, depois da violenta derrocada eleitoral nas últimas eleições legislativas. Com Kumba, o partido constituído por uma base “intacta”, começou a ter brechas internas com a entrada “imposta” pelo próprio Yala, do antigo candidato presidencial, Nuno Gomes Nabian, agora líder do partido APU-PDGB, que quer atingir o mesmo eleitorado tradicional do PRS.

Com uma liderança sem perspectivas nem visão estratégica, o PRS aproxima-se do precipício. Alberto Nambeia, líder do partido, está em guerra com as oposições internas de Ibraim Sori Djalo, um dos membros fundadores do partido, de Artur Sanhá, muito respeitado pela base, de Fernando Correia Landim, voz contestatária da actual liderança que mantém uma jogada silenciosa e perigosa. Esta luta de Nambeia, segundo alguns analistas, tem como única intenção manter-se, custe o que custar, na estrutura do poder, face uma eventual subversão da Ordem Constitucional.

Ou seja, a própria liderança do partido poderá vir a apoiar um hipotético Golpe de Estado disfarçado, que conte com apoio do Presidente da República, José Mário Vaz. Nesse cenário de suposta ameaça, o chefe de Estado poderá vir anunciar o seu tão desejado “Governo de Unidade Nacional”, pondo em causa os resultados eleitorais de 10 de Março, que deram ao PAIGC uma maioria relativa, reforçada pela aliança com a União para Mudança, Partido Nova Democracia e Aliança Popular Unida (APU-PDGB) de Nuno Nabian.

Este cenário – de um eventual Golpe de Estado -, ainda que hipotético, beneficiará o PRS, que se sentiu ferido no seu orgulho político ao perder o estatuto do líder da Oposição a favor do MADEM-G15. Uma consequência expectável após a ofensiva na tomada da sua base tradicional, por parte do APU-PDGB, de Nuno Gomes Nabian, o “menino bonito” de Kumba Yala.

Rodeado por uma juventude adulta e desgastada pela ambição do poder, Alberto Nambeia, actual Presidente do PRS, mantendo o seu clássico espírito de serenidade e coesão, mas agoniado pelas pressões internas, ainda pode contar com algumas jogadas de mestria: perturbar o actual quadro político, com o envolvimento dos militares. Algo improvável, já que Nuno Gomes Nabian, de certa forma, beneficia de larga simpatia no seio da classe castrense.  Além disso, por Nabian estar do lado oposto a Nambeia o PRS deverá aliar-se à provável candidatura às presidenciais de José Mário Vaz.

Todavia, esta dinâmica política deve contar com o MADEM-G15 que tem andado de mãos dadas com o PRS nas investidas políticas contra o PAIGC e os seus aliados. Este último cenário, não vislumbra, contudo, sinais de apaziguamento, já que apesar da intenção de Nambeia, o próprio secretário-geral do PRS, Florentino Mendes Pereira pretende apresentar às presidenciais o seu próprio candidato com o “retornado”, Faustino Imbali, ou então o antigo candidato independente, Domingos Quade.

Consciente que não irá integrar o Governo a ser formado pelo PAIGC, Nambeia tudo está a tentar fazer para inviabilizar os esforços para a nomeação de Domingos Simões Pereira, líder do partido mais votados nas eleições legislativas como o novo Primeiro Ministro. O PRS, cuja base mantém a pressão relativamente aos péssimos resultados eleitorais, espera, ao menos, ter assento na mesa da presidência do parlamento, que já foi negada pelo tribunal regional de Bissau.

Ainda que ao PRS lhe restem jogadas políticas, com o Presidente da República no centro das atenções, o partido foi atingido também pelo escândalo do “arroz do povo”, por arrasto do envolvimento do seu Ministro da Agricultura, Nicolau Dos Santos. Não ocorrendo quaisquer situações “anómalas”, o PRS de Alberto Nambeia esgotou todas as munições, estando no caminho de agonia. A solução para a travessia do deserto dos próximos quatro anos terá de passar pela renovação da sua liderança, apostando numa verdadeira e profunda regeneração, e abdicando da tradicional narrativa belicista defendida pelo líder cada vez mais isolado, internamente e aos olhos da Comunidade Internacional, que é Alberto Nambeia.

Jorge R. Gomes

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