Cabinda | Entrevista

“Hoje é Angola que está em Cabinda. É com Angola que temos de dialogar”, defende Maurício Nzulu

Maurício Amado Nzulu

Acusada de ser uma organização instrumentalizada pelo Governo angolano, o Fórum Cabindês para o Diálogo (FCD) perdeu ainda mais protagonismo na paisagem política cabindesa quando o seu presidente, António Bento Bembe, integrou o governo angolano e aceitou ser deputado do MPLA. Para os críticos e alguns membros do FCD, a escolha de António Bento Bembe tornou-se incompatível com a sua função no Fórum.

Com o objectivo de inverter a situação e “revitalizar” o FCD, durante um “encontro circunstancial” a 21 de Abril, foi decidida na sede do Fórum a constituição de uma Comissão de Transição com “todos poderes” e encabeçada pelo General na Reforma Maurício Amado Nzulu, o qual tem como missão “gerir os destinos da mesma organização, até a eleição do novo Presidente do Fórum Cabindês para o Diálogo”, tal como referia o comunicado no final do encontro.

“É necessário pôr a funcionar imediatamente as estruturas que ficaram muito tempo paradas. Temos agora de trabalhar para reorganizar” o Fórum, explicou Maurício Amado Nzulu à e-Global. “Criamos uma Comissão de Transição que, apesar de não ter muitos poderes, tem o objectivo de preparar e relançar todas as actividades do FCD e permitir atingir todas as camadas da sociedade”.

FCD alvo de críticas

Sobre as críticas que tem sido alvo a nova estrutura, ainda em desenvolvimento, do FCD, Maurício Nzulu diz que “em democracia todos são livres de dizerem o que quiserem. O principal para nós é possibilitar que as pessoas possam falar, e depois, cada pessoa que fala que mostre o que é capaz de fazer”.

“Hoje existem pessoas que insistem que, custe o que custe, temos de chegar à independência. Não excluímos essa hipótese”, afirma Maurício Nzulu, “mas a verdade é que o povo não pode apenas ficar na esperança, tem de viver a realidade prática. Para o povo ter liberdade tem de ter trabalho, liberdade de expressão e tem de se organizar. Nós não queremos que o povo sobreviva, mas que viva”.

“Não estamos aqui para criticar seja lá quem for”, diz Maurício Nzulu. “Estamos aqui para permitir que cada individuo que tenha uma opinião possa exprimir essa opinião e permitir que a população viva melhor”, e acrescenta, “para nós se a crítica é construtiva, é positivo. Mas se não é construtiva… ‘os cães ladram e a caravana passa’. Preferimos responder pelo silêncio a um certo tipo de pessoas”.

Papel de António Bento Bembe

Relativamente ao afastamento de António Bento Bembe da liderança do FCD, Maurício Nzulu afirma que: “Podemos dizer que Bento Bembe foi afastado completamente do FCD porque era ele o chefe. Agora não é mais o presidente do FCD”. No entanto, para Maurício Nzulu, o FCD é uma “organização inclusiva”, e por esse motivo não excluí a hipótese que uma pessoa oriunda do MPLA, FNLA, UNITA ou “qualquer outra organização, ser membro do FCD. Podemos ouvir as opiniões de Bento Bembe, como de todas as pessoas que são da nossa linha”.

Missão do FCD

Segundo Maurício Nzulu, o FCD é um Fórum que “tem como missão congregar toda a população”, e sublinha que o FCD é “um órgão legal com reconhecimento nacional e internacional” e para Angola “o interlocutor válido é o FCD. A comunidade Internacional reconhece também o Fórum, na medida que Angola faz parte das Nações Unidas”. Para Maurício Nzulu quando vários países reconheceram os acordos do Namibe, implicitamente “reconheceram o FCD como o interlocutor válido”.

“O FCD tem um reconhecimento internacional”, insiste Maurício Nzulu, assim “o FCD é a plataforma com a qual o governo angolano deverá resolver a questão. O FCD não é um movimento de libertação, é uma plataforma que poderá permitir a resolução e poderá reunir todas as opiniões. O FCD não é contra alguém que defenda verbalmente a independência de Cabinda. Mas o FCD não aceita actos que sejam condenáveis internacionalmente e no quadro nacional de Angola”.

“Existem pessoas que defendem a independência em Cabinda. Houve pessoas que infelizmente foram detidas por isso. O FCD lamenta essas detenções e está a tentar, por todos os meios, que cessem esse tipo de acções e que essas pessoas sejam libertadas”, garante Maurício Nzulu.

Dialogar com o FLEC

“O FCD foi criado com base na FLEC na Holanda onde estiveram presentes a FLEC/FAC a FLEC Renovada, a Igreja, Sociedade Civil, ou seja, a base da população de Cabinda. Dialogar com a FLEC é natural e normal, a partir do momento que a opinião da FLEC vá de encontro com as normas do FCD, na medida em que o FCD defende o diálogo, a paz e adoptou a via de uma luta pacífica”, explica o actual presidente da Comissão de Transição do FCD.

Alianças com organizações e plataformas

“Nós tivemos reuniões, mais reuniões. Tivemos múltiplas reuniões e encontros. Por exemplo, em Lisboa, em Libreville, Congo… Temos ido de reunião em reunião. Mas todas estas reuniões não resultaram em nada. Essas reuniões são para falar e dialogar com quem? Devem ser para falarem com eles mesmos”, ironiza Maurício Nzulu. “É esse o problema. Vão fazer reuniões para quê e porquê? Vão falar com quem? O governo angolano não está em Lisboa nem em Paris nem nos EUA. Hoje é Angola que está em Cabinda. É com Angola que temos de dialogar”, sublinha, e como o “povo cabindês está sobre a tutela de Angola” é em Cabinda que “devemos falar e será aqui que o governo angolano terá de nos ouvir”.

“O FCD pode organizar um encontro se eles tiverem as condições necessárias para se deslocarem a Cabinda”, sugere Maurício Nzulu que adianta que o FCD poderá pedir ajuda ao governo angolano a fim de facilitar “documentos, por exemplo, ou de outra forma. Podemos trabalhar nesse sentido, para que a reunião se realize em Cabinda”, no entanto acrescenta: “Vamos supor que uma comunidade política se reúne em Cabinda, ela terá de ter em conta que o FCD é o órgão nacional reconhecido”.

Integração de novos elementos no FCD

“O FCD é uma estrutura que agrupa todas as opiniões da sociedade cabindesa. Qualquer individuo que defende ideias democráticas pode fazer parte do FCD. Todos sabem que no seio da sociedade cabindesa existem alguns que são extremistas e não querem ouvir uma palavra que vá contra aquilo que eles pensam. O FCD ouve tudo que as pessoas pensam, desde que seja pacificamente e que nunca pretendam atingir a integridade física ou moral das pessoas. Neste momento há pessoas que estão a integrar o FCD”, garante Maurício Nzulu.

Relação FCD e Governo angolano

“O FCD é o Fórum Cabindês para o Diálogo e não o Fórum Angolano para o Diálogo. O FCD não foi criado em Angola, foi criado em Helvoirt (Holanda) e levou a cabo uma luta até conseguir convencer o governo angolano a sentar-se numa mesa”, sublinha Maurício Nzulu. “O FCD dialogou com o Governo. Todos resultados obtidos foram aprovados pela Assembleia. Esta foi uma nova forma de luta, com muita sabedoria e paciência”, disse Maurício Nzulu negando todavia qualquer dependência do Fórum com o Governo angolano.

Método FCD

“O FCD é como uma igreja, porque ele foi criado por forças reconhecidas por toda a população. A história fez que outras forças apareçam hoje, isso quer dizer que o trabalho não foi totalmente bem feito, mas o governo terá também de assumir as suas responsabilidades”, considera Maurício Nzulu. “Fazem estádios, mas a população não come estádios. A população tem de ter o direito de estudar, de ter acesso à saúde, comer e o direito de falar”, defende, insistindo que “ainda há muito trabalho por fazer” no cumprimento do Memorando de Entendimento.

“Outros podem aproximar-se do FCD, manifestando o seu interesse. Existem muitas organizações que nós não conhecemos e outras que são apenas um individuo que existe pelas mensagens com as opiniões que ele tem, mas não tem uma organização, nem estrutura, nem é reconhecido”, explica o presidente da Comissão de Transição do FCD. “Pretendemos aproximar de algumas organizações que têm uma sede e outras que conhecemos quem as integra”.

“Se uma organização existe de facto, tem estatutos, tem uma sede e uma existência jurídica, poderá sugerir integrar o FCD. Qualquer um pode vir e pode nos ouvir. Já recebemos várias cartas, e outros enviaram sinais claros” em que manifestam pretender integrar o Fórum, afirma Maurício Amado Nzulu.

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