América Latina | Reportagem

Venezuelanos em Portugal: De Lisboa a Cascais com a Venezuela no horizonte

Numa manhã solarenga de primavera apanho o comboio no Cais de Sodré com destino a Cascais, são cerca de 40 minutos de comboio  para embarcar numa viagem com rumo à Venezuela.

A 1 de Maio de 1999 Cristian chegou ao Aeroporto de Lisboa, tinha então 20 anos e Chavez iniciava o seu mandato frente a um dos países mais prósperos e ricos da América Latina, a Venezuela. O empresário venezuelano, com ADN alemão tem agora 40 anos e escolheu Portugal, mais concretamente Cascais, para viver e trabalhar.

É ao mesmo tempo presidente da Venexos Lisboa há cinco anos. “Neste momento  a Venexos é um organização não governamental que presta todo o apoio possível às pessoas que vivem na Venezuela, através da doação de alimentos e medicamentos. Os venezuelanos que chegam a Portugal, tirando alguns casos isolados, estão bem, trabalham, têm a sua vida organizada, mas quem está na Venezuela neste momento precisa muito de ajuda e através de acordos e parcerias com as pequenas instituições e fundações que operam no terreno consegue-se chegar a quem mais precisa.”

Cristian ainda não perdeu o sotaque nem a alma venezuelana, por isso diz, em jeito de aviso, que para um europeu não é fácil perceber a Venezuela. “Tudo tem de ser feito com muita calma, não basta ter boas intenções pois o nível de corrupção é muito forte e as pessoas estão desesperadas, por isso quando a Venexos organiza campanhas procuramos pequenas instituições e fundações que trabalhem no terreno.Claro que também trabalhamos com a Cruz Vermelha Internacional, a Caritas mas se entramos na Venezuela com todo o aparato de uma operação em grande escala, seria impossível a ajuda chegar a quem mais precisa.”

Há 20 anos era tudo muito diferente na Venezuela, o chavismo florescia, o país tinha o PIB per capita mais alto da América Latina, os índices de pobreza e subnutrição atingiam níveis muito baixos, e só um olhar mais atento percebia que  o endividamento aumentava a par da inflação, as receitas com o petróleo diminuíam, e a situação ia-se deteriorando de para dia para dia. Cristian percebeu isso, por isso saiu do seu país e como ele mais de cinco milhões de venezuelanos. Hoje, Cristian, afirma que há cerca de 22 mil venezuelanos a residirem em Portugal.

”Aqueles que chegam são na sua maioria  luso-descendentes, mas há também que venha de Espanha porque sabem que o processo de legalização em Portugal é mais acessível e porque neste momento a pressão migratória em Espanha é muito forte, não são só venezuelanos, são chilenos, argentinos, peruanos e está cada vez mais difícil…”

Os relatos sobre a crise venezuelana enchem telejornais e o que acontece lá é indescritível, faltam as palavras, os adjetivos, mas o maior problema da Venezuela no entender de Cristian é a questão cultural. “Um jovem que em 1999 tinha 15 anos e hoje tem 35 só conhece o Chavismo e mesmo que o governo atual caia como é que se vai conseguir dizer ao povo e aos jovens que é preciso trabalhar, que não podem ficar à espera de uma cesta de alimentos? Há pessoas que ainda têm a foto de Chavez nas suas casas, que velam por ele e para uma grande parte da população venezuelana, Chavez é visto como um mártir.”

Em relação ao surgimento de Guaidó, Cristian pensa que o Presidente proclamado está a fazer tudo o que pode e que até ao fim do ano irão haver mudanças. Mas, para isso acontecer, “é preciso que os E.U.A dêem um empurrão, que Maduro decida finalmente abdicar, que a filha de Chavez não se decida candidatar à presidência e isso ainda são muitos “se.”

Mesmo assim os venezuelanos vivem! Procuram tirar o melhor partido da situação e continuam a juntar-se para beber uma cerveja no meio do caos, ainda se divertem porque a vida não pode parar.”

E é essa é uma das grandes diferenças que Cristian aponta, “em Portugal as pessoas queixam-se muito da vida, da segurança social das finanças, da saúde. Na Venezuela se alguém ficar doente, morre, se alguém for para o hospital morre, é a realidade lá, mas nem sempre foi assim…Os venezuelanos já foram como os portugueses, não davam valor ao que tinham, queixavam-se muito, agora estão assim, acho que temos de aprender a valorizar mais aquilo que temos em Portugal para que aqui não se passe o mesmo que se passou lá!

De Cascais à Parede são 15 minutos e perto da estação de caminho de ferro há um restaurante venezuelano que é gerido por Mary Longart, 54 anos, natural de Miranda, cidade que fica a cerca de 45 minutos de Caracas. Mary chegou a Portugal há cerca de um ano, e sempre trabalhou no pequeno restaurante “El placer de comer.” Começou por ser empregada, hoje é a gerente e aquele restaurante serve como ponto de encontro da comunidade venezuelana.

É hora de almoço, os clientes que vão entrando são venezuelanos,  cumprimentam Mary, falam da Venezuela, de Guaidó, “que está a ir com muita calma a fazer o que deve ser feito”, falam  sobre uma possível intervenção dos E.U.A, dizem que a culpa é dos “russos”, -é impossível não falar de política- e entre as queixas sobre o aumento da repressão e as dificuldades que se sentem, há também gargalhadas e desabafos. Estamos na Parede, a 30 minutos de Lisboa, mas naquela altura era como se estivessemos em Caracas a comer Arepa, o “prego” da Venezuela.

O sorriso rasgado de Mary enche o balcão do pequeno restaurante, a aventura em terras lusas não podia estar a correr melhor, assegura a antiga administradora de uma loja. “Vim para Portugal e trabalhei em todo o lado, nas limpezas, atrás do balcão, muitas vezes trataram-me mal, mas nunca deixei de sorrir e essas pessoas que foram rudes comigo na altura, hoje são os meus melhores clientes. É difícil ser emigrante, é preciso arregaçar as mangas, esquecer o curso superior e trabalhar muito.”

-E porquê Portugal?

“A minha irmã casou com um português já aqui vive há sete anos e como a situação na Venezuela estava a piorar de dia para dia, ela convenceu-me avir. Mas a minha sogra, que é como uma mãe para mim continua a viver na Venezuela e o pai dos meus filhos também, por isso estamos sempre preocupados com o que pode acontecer.”

-A Venezuela irá recompor-se?

“Eu acredito que sim, porque é o meu país e acredito que os venezuelanos vão conseguir dar a volta, mas vai ser difícil… E claro que como todo o emigrante sonho um dia voltar para o meu país.” Entram mais clientes, o pequeno restaurante começa a encher e agora também se ouve português. A quem entra,  Mary recebe-os com o sorriso de sempre. “É que estar atrás de um balcão é um pouco como ser psicólogo!” Quando me despeço diz-me que aquilo de sente mais saudades são dos amigos que deixou na Venezuela.

De volta a Lisboa, ao princípio da tarde, converso com o jovem Rossen Abreu, 22 anos, natural de Caracas e há um ano e meio em Portugal. Primeiro foi para os E.U.A, mas entretanto o visto acabou e como tinha nacionalidade portuguesa decidiu ficar em Portugal. Veio com o pai, mas agora também já cá está a mãe e os irmãos. “É um país seguro muito seguro! Neste momento estou a trabalhar e a preparar-me para entrar na Universidade para ingressar no curso de relações internacionais.”

Quando começamos a falar na Venezuela, há uma pausa…  “Aquilo é caótico! Eu saí de lá há dois anos, há muita insegurança, o salário não dá para comprar comida, a situação é muito, muito complicada. Enquanto Chavez lá estava as coisas eram bem melhores, apesar de também não ser um defensor de Chavez,  tudo funcionava melhor, agora comMaduro a situação é terrível.”

Para o jovem venezuelano, Maduro apenas se aguenta no poder porque “há muitas pessoas que dependem do governo, como os funcionários públicos que não podem reclamar e os militares que o rodeiam são cubanos, colombianos, peruanos,  mercenários contatados…” A vida está cá, mas o coração continua lá e quando Rossan começa a falar da sua terra as palavras soltam-se com naturalidade; “Na Venezuela há riquezas naturais que são inimagináveis, por isso quando o país se voltar a erguer não vão faltar projetos turísticos, mas os russos, chineses, norte americanos, todos procuram tirar dividendos e não se preocupam com as pessoas de lá.”

Quando chegou a Portugal sentiu um tremendo choque cultural, “a diferença entre latinos e europeus é muito grande, na Venezuela, apesar de tudo, as pessoas são muito alegres e carinhosas, aqui os portugueses são muito fechados, não há aquele sentido de humor típico dos latinos, as pessoas não se riem tanto, mas também não há tanta gente jovem, é uma sociedade muito envelhecida. ”

Em relação ao futuro da Venezuela, independentemente do governo que tome posse, o jovem nenezuelano pensa que é a mentalidade que tem de mudar e isso vai demorar muitos anos. Para já, Rossan quer ficar em Portugal, mas também que passar por Espanha, conhecer a Europa!

 

 

Ana Gonçalves

 

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